Family breakfast

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O bebé descobre o Mundo através da boca. Por isso se diz que no primeiro ano de vida vivenciamos a fase oral. Já aqui falámos um pouco sobre a importância do processo da alimentação, mas há sempre algo a acrescentar!

É claro que a amamentação é a primeira forma (natural e hipoalergénica), mas não é sobre ela que nos debruçaremos neste artigo.

É através do processo da alimentação que também se dá um evolução de toda a estrutura oral da criança (condição básica para as competências relacionadas com a linguagem).

Já dizia Bruno Bettelheim (Psicólogo Infantil) que ‘…a comida dada de má vontade, sem amor, não alimenta, é um insulto.’.

Para Bettelheim, o modo como cada um é alimentado e a forma como se alimenta influenciam mais a personalidade do que qualquer outra experiência humana. E continua: ‘… as experiências alimentares vividas condicionam todas as nossas atitudes perante o mundo exterior, não em relação ao valor nutritivo dos alimentos recebidos, mas sim com os sentimentos e as atitudes que os acompanharam. A atitude alimentar do bebé adquire-se, não é inata: só depois de várias refeições ‘felizes’ o bebé deixará de gritar pela próxima mamada; ele terá então aprendido a esperar pacientemente. (…) Uma criança a quem os alimentos não tenham dado ‘satisfação física’ é incapaz de controlar a sua fome e os seus apetites. Como impedir uma criança de se atirar às bolachas sem moderação, em vez de esperar uns instantes, se esta criança nunca teve satisfação no plano alimentar e emotivo? Não pode desenvolver esse controlo, pois não recebeu as bases emotivas necessárias’.

Alimentar bem uma criança é, antes de mais, amá-la; este amor e esta ternura dos primeiros meses servirão de base para os bons hábitos alimentares.

E logo que a criança manifeste os primeiros passos na sua autonomia alimentar, deve-se deixá-la comer sozinha. Assim que a criança levar sozinha a comida à boca… parabéns!!! :)

Mas… pois… vai ver alimentos espalhados pelo chão, pela roupa a cheirar a limpo, pelo sofá, pelas portas, por todo o lado.

E perguntam vocês: como podemos promover a autonomia alimentar da criança sem ter a nossa casinha suja?

Digo-vos: não podem.

Podemos diminuir o risco de sujar a casa: colocando a criança numa cadeira de comer (de onde não possa sair), oferencendo os alimentos em pratos fundos, colocando babetes e, até, um plástico debaixo da cadeira de comer onde está a criança. Ofereça alimentos que a criança possa agarrar: pedaços pequenos de pão, carne, peixe, legumes, frutas, queijo. Tenha em atenção que, inicialmente, os líquidos são mais difíceis de dominar. Sirva-lhe líquidos com ‘assistência’.

Ah! E interrogue-se sobre a razão pela qual o seu bebé entorna leite para dentro do prato, ou atira sempre o pão para o chão. Trata-se de uma atitude apelativa, de chamada de atenção? Será que já não está com apetite?

É que os meses vão passando e os gestos podem adquirir novos significados. Fique atenta para que encontre a resposta/solução adequada.

Um outro aspecto muito importante é o facto de a criança dever partilhar a hora das refeições com a família. Este trata-se de um momento social importante do dia, podendo ser a única ocasião em que está com o pai, podendo ouvir a sua voz!

Para nós, os adultos, os momentos agradáveis do dia são, muitas vezes, a hora das refeições: momento caloroso em que partilhamos não só alimentos, como também sentimentos, novas ideias e projectos. Não exclua o seu bebé desse momento familiar tão importante. Para a criança, mesmo pequenina, participar numa refeição familiar é o primeiro acto social que ela realiza. Integre desde cedo o seu bebé neste momento familiar.

Esta hora da refeição não deverá ser momento para discussões, conflitos: se a criança associa o momento da refeição a uma batalha, perderá o prazer em comer. Uma atmosfera tensa pode ‘cortar’ o apetite! E lembre-se que um problema alimentar pode conter em si um elemento de protesto: a criança serve-se das suas preferências para reclamar que ‘quem manda aqui sou eu!’.

E… no final de contas, os alimentos adquirem um valor simbólico que mistura não só as suas próprias qualidades enquanto alimento, como também as qualidades daqueles que no-los-dão.

Psicóloga Clínica (ISCS-N). Mestre em Aconselhamento Dinâmico (ISMT). Psicodramatista (SPPPG). Instrutora de Massagem Infantil (APMI-IAIM). Instrutora de Massagem nas Escolas (AME-MISP). Formação em Vinculação e Psicopatologia. Docente do Ensino Superior. Orientadora / co-orientadora de teses de licenciatura e orientadora de estágios em Psicologia. Formação em Língua Gestual Portuguesa - nível I.

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